
Há um silêncio que só existe aqui.
Entre a minha mão e o teu corpo adormecido,
entre a respiração que já encontrou o ritmo dos sonhos
e o meu coração, que nunca aprendeu a descansar de te amar.
Ainda agora adormeceste,
mas eu fico.
Como fiquei desde o primeiro instante em que exististe,
guardando o sono como quem vigia um universo inteiro.
Passo os dedos pela tua pele
e o tempo desfaz-se.
És este menino comprido,
de mãos que já seguram o mundo com curiosidade,
e, ao mesmo tempo,
és o bebé que cabia inteiro no espaço entre o meu peito e o meu braço.
Não sei para onde foi esse corpo minúsculo.
Só sei que continua escondido dentro deste,
como um eco que nunca deixou verdadeiramente de existir.
Há uma espécie de luto em cada centímetro que cresces.
Não porque deseje prender-te à infância,
mas porque cada versão tua que a vida leva consigo
merecia ter existido para sempre.
E, ainda assim,
há uma beleza quase insuportável em ver-te tornar-te quem és.
É estranho amar alguém desta forma:
com a alegria de o ver florescer
e a saudade de todas as primaveras que já passaram.
Enquanto dormes,
percebo que a maternidade talvez seja isto:
aprender que o amor é a única coisa capaz
de sentir nostalgia do presente
enquanto ainda o vive.
Por isso não retiro já a mão.
Deixo que memorize,
em silêncio,
o calor da tua pele,
o peso tranquilo da tua respiração,
a paz impossível do teu rosto.
Porque um dia,
sem eu dar conta,
esta noite também será memória.
E sei que, quando esse dia chegar,
fecharei os olhos
e voltarei sempre a este instante:
tu a dormir,
a minha mão sobre ti,
e o meu coração,
pela milésima vez,
a descobrir que amar um filho
é aceitar partir o próprio coração em pequenos pedaços de tempo,
e, ainda assim,
agradecer por cada um deles.



