Aprendi a falar com o inverno

13:35

Há árvores

que nunca conheceram a primavera sem desconfiança.


As raízes aprendem cedo

que o chão também sabe partir-se.


Cresci a acender velas

em casas onde o vento morava,

como quem faz da escuridão

uma língua materna.


Há quem tema o abismo.

Eu aprendi-lhe o nome,

o silêncio,

o eco.


Talvez por isso ame com a força

de um rio que nunca encontrou mar,

sempre a acreditar

que a próxima margem

não desaparecerá ao amanhecer.


Mas há portas

que nascem entreabertas,

e mãos que afagam

enquanto ensaiam a despedida.


Eu conheço esse gesto.


Carrego sóis inteiros no peito,

mas acostumei-me a caminhar

como quem pede licença à noite.


E, ainda assim,

há em mim uma flor teimosa

que insiste em romper o asfalto.


Não porque nunca tenha sido abandonada.


Mas porque, contra toda a lógica,

o meu coração continua a acreditar

que até a escuridão

um dia

se cansará de me chamar de casa.

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