Eu nasci com um incêndio dentro do peito
e passei metade da vida
a aprender a não chamar-lhe luz.
Há em mim qualquer coisa de abismo,
uma profundidade que assusta
até quem sabe nadar.
Talvez por isso eu ame com as portas fechadas.
Não porque não queira ser encontrada,
mas porque conheço demasiado bem
o som de alguém a entrar
e depois levar consigo
tudo o que eu tinha deixado aceso.
Eu já confundi mãos com abrigo.
Beijos com promessa.
Presença com permanência.
Já dei o meu corpo
a lugares onde a minha alma
não cabia.
E aprendi.
Aprendi que há pessoas
que sabem tocar na pele
sem nunca tocar na ferida.
Que há olhos capazes de desejar
sem jamais enxergar.
Que há braços que apertam
e, ainda assim,
não sabem segurar ninguém.
Por isso agora
eu observo o amor de longe.
Como quem observa o mar
depois de quase se afogar.
Quero-o.
Meu Deus, como o quero.
Mas há desejos que carregamos
com as mãos trémulas.
Porque dentro de mim
o amor nunca foi uma coisa pequena.
Quando amo,
não acendo uma vela.
Incendeio a casa inteira.
Entrego o mapa das minhas ruínas,
a chave dos quartos onde nunca entra ninguém,
a minha fome,
os meus silêncios,
a mulher que existe
quando já não preciso de parecer forte.
E isso assusta-me.
Porque ser amada
é também permitir
que alguém descubra
onde dói.
E eu passei demasiado tempo
a transformar feridas em muralhas.
Talvez seja esse o meu maior paradoxo:
quero alguém que me atravesse,
mas tremo diante da possibilidade
de ser finalmente alcançada.
Quero profundidade,
mas temo o que pode viver no fundo.
Quero entrega,
mas ainda escuto dentro de mim
a voz daquela mulher
que jurou nunca mais se perder
em ninguém.
Então fico aqui,
entre o desejo e a defesa,
com o coração encostado à porta
e a mão ainda sobre a maçaneta.
Sem saber se abro.
Sem saber se fujo.
Porque talvez o amor verdadeiro
não seja aquele que chega
como uma tempestade.
Talvez seja aquele que chega devagar,
senta-se diante das minhas ruínas
e não tenta reconstruí-las.
Apenas fica.
Até que eu perceba
que nem toda a presença
é abandono adiado.
Até que o meu corpo desaprenda
a esperar a partida.
Até que eu consiga olhar para alguém
sem procurar nos seus olhos
o momento exacto em que vai desaparecer.
E talvez, nesse dia,
eu finalmente entenda:
que não preciso de alguém
que me salve do meu abismo.
Preciso de alguém
que não tenha medo
de se sentar à sua beira comigo.
Porque eu não quero mais
um amor que me destrua
para provar que é intenso.
Quero um amor
que conheça a minha escuridão
e, ainda assim,
escolha ficar.
E se algum dia eu te deixar entrar,
não confundas o silêncio com ausência.
É só o meu coração,
pela primeira vez,
a aprender a abrir uma porta
sem estar preparado
para a fechar.

